Como deixar de sentir que monta mal: sair da espiral do julgamento
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Por vezes, basta uma sessão complicada para surgir o pensamento: «Sou um desastre a cavalo.» Um exercício não resulta, o cavalo defende-se, o treinador corrige várias vezes ou alguém ao seu lado parece conseguir tudo facilmente. Em poucos minutos, uma dificuldade concreta torna-se um julgamento sobre todo o seu valor enquanto pessoa que monta.
Esta frase parece um facto. Não é. «Sou um desastre» não descreve o que aconteceu nem o que seria preciso trabalhar. Fecha a porta precisamente no momento em que precisa de compreender.
A equitação multiplica as oportunidades de comparação
Níveis, cavalos, meios financeiros, objetivos e anos de experiência convivem constantemente. Nas redes sociais, vemos sobretudo percursos bem-sucedidos, progressos rápidos e cavalos perfeitamente trabalhados. Na cavalariça, um comentário ou um olhar pode bastar para despertar a sensação de estar a ficar para trás.
Mas duas pessoas na mesma aula não vivem a mesma história. Não têm o mesmo cavalo, corpo, medos ou tempo disponível. Comparar apenas o resultado visível apaga tudo o que o tornou possível.
Não é a sua última sessão
A equitação é um desporto de relação e adaptação. Uma sessão depende do seu estado, do estado do cavalo, do ambiente, do material, da instrução e da qualidade da comunicação entre ambos. Uma dificuldade pode revelar um ponto técnico a trabalhar sem pôr em causa a sua legitimidade para montar.
Pode ter experiência e perder a confiança no momento. Pode estar a começar e tomar uma excelente decisão. Pode falhar um exercício e, ainda assim, ter sido justo com o cavalo. O nível não é uma identidade fixa.
Como se instala a espiral do julgamento
- Surge uma dificuldade.
- Transforma-a num veredicto: «Monto mal.»
- Fica tenso e procura provar imediatamente o contrário.
- Escuta menos as suas sensações e as respostas do cavalo.
- O exercício piora, o que parece confirmar o veredicto inicial.
O problema não é, por isso, apenas que o pensamento magoa. Também reduz a sua capacidade de observar e aprender.
Substitua o veredicto por uma observação
Uma observação útil é precisa, limitada e modificável. Por exemplo:
- em vez de «não sei montar», diga «perdi o ritmo nas últimas três passadas»;
- em vez de «o meu cavalo recusa porque sou um desastre», diga «tivemos duas recusas e preciso de perceber a causa com o meu instrutor»;
- em vez de «todos progridem menos eu», diga «este exercício continua difícil hoje, mas este outro ponto está mais estável do que há um mês»;
- em vez de «voltei a ter medo», diga «o medo aumentou nesta situação concreta e consegui pedir uma pausa».
Esta mudança de vocabulário não é um truque para embelezar a realidade. Permite voltar a agir sobre ela de forma concreta.
Ser gentil consigo não significa deixar de ser exigente
Tratar-se com gentileza não significa desculpar tudo, desistir de progredir ou recusar correções. É possível olhar honestamente para um erro sem se humilhar.
Uma exigência saudável diz: «Este ponto precisa de melhorar; é assim que vamos trabalhá-lo.» O julgamento diz: «Não estás à altura.» A primeira abre um caminho. O segundo fecha-o.
As melhores aprendizagens não vêm necessariamente de palavras suaves, mas precisam de respeito, clareza e do direito de fazer perguntas.
Um bom enquadramento faz progredir sem rebaixar
Quem o acompanha pode ser exigente, pedir-lhe que repita e incentivar maior precisão. Mas humilhações, troça, comparações públicas ou negar sistematicamente o seu medo não são métodos pedagógicos obrigatórios.
Tem o direito de dizer que um comentário o bloqueia, pedir outra explicação ou mudar de acompanhamento se o contexto o prejudica mais do que o faz progredir. O meio equestre por vezes normalizou a dureza como prova de seriedade. Mas não são sinónimos.
Os progressos mais importantes nem sempre se veem
É fácil contar alturas, classificações ou exercícios conseguidos. Outros avanços também merecem reconhecimento:
- percebeu mais cedo que a situação estava a piorar;
- formulou um pedido mais claro;
- desistiu de um exercício que se tinha tornado injusto para o cavalo;
- manteve a calma perante um erro;
- compreendeu porque algo não funcionava;
- aceitou voltar a algo mais simples sem vergonha.
Estes progressos constroem uma equitação mais precisa, mais segura e, muitas vezes, mais respeitadora do cavalo.
Um ritual de três perguntas após a sessão
- O que ficou mais claro hoje?
- O que fiz de útil para o meu cavalo ou para mim?
- Que único ponto vou retomar da próxima vez?
Três respostas bastam. O objetivo não é transformar cada sessão numa análise interminável, mas impedir que uma emoção passageira reescreva toda a sua história a cavalo.
Tem o direito de aprender ao seu ritmo
O seu lugar a cavalo não depende de uma sessão perfeita, de um nível mínimo ou da aprovação de toda a cavalariça. Pode ter ambição sem ser duro consigo. Pode querer fazer melhor sem concluir que não vale nada quando ainda não consegue.
Se o medo alimenta este sentimento, comece por «Ter medo a cavalo: e se fosse normal?». Para reconstruir depois referências concretas, leia «Medo a cavalo: como recuperar a confiança sem se forçar».
Não precisa de se diminuir para progredir. Precisa de compreender, de acompanhamento adequado e de se dar tempo para aprender.